A Argentina acumulou mais cartões nas Copas do Mundo do século XXI do que qualquer outra seleção — 82 pontos disciplinares em sete torneios. Mas há um porém. Por partida, ela nem sequer aparece entre as dez primeiras. A seleção que, de fato, joga de forma mais suja, jogo a jogo, é uma que quase ninguém conseguiria adivinhar nem em cem tentativas, e que nunca passou das quartas de final.

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Essa diferença entre “mais cartões” e “jogo mais sujo” permeia tudo o que se segue. Analisamos todas as sete Copas do Mundo do século, desde Coreia/Japão 2002 até a edição de 2026 com 48 seleções, e avaliamos cada time por meio de um único indicador — o Índice de Rigor da TipsGG — para descobrir contra quem os árbitros realmente recorrem ao cartão.
Uma breve explicação sobre como estamos fazendo a contagem
Nem todos os cartões têm o mesmo peso, por isso não os tratamos da mesma forma. Um cartão amarelo vale 1 ponto. Um segundo amarelo — aquele que leva à expulsão do jogador — vale 2. Um cartão vermelho direto, o pior de todos, vale 3. Some os cartões de uma seleção e você obtém seu Resumo de Rigor, o SS. Esse é o total bruto.
O problema com os totais brutos é que eles favorecem a sobrevivência. Uma equipe que chega à final joga sete ou oito partidas; uma equipe eliminada na fase de grupos joga três e, naturalmente, recebe menos cartões simplesmente porque passa menos tempo em campo. Por isso, dividimos o SS de cada time pelo número de partidas disputadas para obter o Índice de Rigor — cartões por jogo. Esse é o número que importa e, como você verá, ele reorganiza toda a tabela. (Tudo isso é resultado de uma pesquisa da TipsGG, utilizando o mesmo método para todos os times e torneios.)
- Leia também: As fábricas por trás da Seleção. As academias brasileiras que formaram a seleção para a Copa do Mundo da FIFA de 2026
Os rankings gerais — e por que eles podem induzir ao erro
Este é o ponto óbvio para começar: quem acumulou mais conquistas ao longo de mais de vinte anos.
| Posição | Time | Amarela | 2º Amarelo | Vermelho direto | Total de SS | Partidas | SI |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
|
1 |
Argentina |
74 |
1 |
2 |
82 |
39 |
2,10 |
|
2 |
Portugal |
56 |
3 |
3 |
71 |
31 |
2,29 |
|
3 |
Brasil |
60 |
1 |
2 |
68 |
39 |
1,74 |
|
4 |
Países Baixos |
59 |
4 |
0 |
67 |
27 |
2,48 |
|
5 |
França |
55 |
0 |
3 |
64 |
40 |
1,60 |
|
6 |
México |
55 |
1 |
2 |
63 |
28 |
2,25 |
|
7 |
Alemanha |
54 |
3 |
0 |
60 |
38 |
1,58 |
|
8 |
Coreia do Sul |
55 |
0 |
0 |
55 |
27 |
2,04 |
|
9 |
Uruguai |
43 |
1 |
3 |
54 |
25 |
2,16 |
|
9 |
Suíça |
46 |
1 |
2 |
54 |
25 |
2,16 |
A Argentina lidera com 82. Mas observe a coluna à direita: 39 partidas, empatada com o Brasil como a seleção com mais jogos na lista. Ela lidera a contagem em grande parte porque sempre chega às fases decisivas dos torneios e, consequentemente, joga mais futebol. Quanto mais jogos você joga, mais cartões acumula — é quase assim de simples.
Depois, há algo realmente estranho sobre a Argentina. Setenta e quatro cartões amarelos, dois cartões vermelhos diretos e, nos seis primeiros torneios do século, nenhum jogador recebeu dois cartões amarelos na mesma partida e foi expulso — zero segundos cartões amarelos, uma sequência extraordinária. Ela finalmente foi quebrada em 2026, quando a seleção recebeu seu primeiro segundo cartão amarelo em vinte e quatro anos de Copa do Mundo. Um, em sete torneios. A maioria das seleções no topo tem vários; a Holanda tem quatro. A Argentina acumulou uma montanha de advertências, mas quase nunca cruzou a linha específica que transforma dois cartões amarelos em uma expulsão antecipada. É um tipo estranhamente disciplinado de indisciplina — eles cometem faltas constantemente, mas raramente perdem o controle.
Os holandeses têm um temperamento oposto. Quatro cartões amarelos por reincidência é o maior número entre todas as seleções, marca registrada de jogadores que vão um passo além na disputa. Portugal tem o perfil mais agitado de todos: três cartões amarelos por reincidência e três cartões vermelhos diretos, sendo a única nação em risco real nas duas frentes.
E então, em terceiro lugar na lista, o Brasil. O país sinônimo de “joga bonito”, com talento, samba e futebol como alegria — o terceiro mais sujo do século em contagem bruta, com 68 pontos. Guarde essa informação, porque a tabela por partida está prestes a revelar algo interessante a respeito.
O verdadeiro ranking: cartões por partida
Esta é a tabela que a contagem bruta estava ocultando. Se tirarmos a vantagem da longevidade e dividirmos pelo número de partidas disputadas, um grupo completamente diferente de seleções sobe ao topo. (Para manter a comparação justa, esta tabela se limita a nações com pelo menos doze partidas da Copa do Mundo neste século — amostra suficiente para ter significado.)
| Posição | Seleção | Resumo do rigor | Partidas | SI (cartões/partida) |
|---|---|---|---|---|
|
1 |
Gana |
49 |
19 |
2,58 |
|
2 |
Camarões |
30 |
12 |
2,50 |
|
3 |
Países Baixos |
67 |
27 |
2,48 |
|
4 |
Paraguai |
42 |
17 |
2,47 |
|
5 |
Equador |
40 |
17 |
2,35 |
|
5 |
Itália |
40 |
17 |
2,35 |
|
7 |
Austrália |
49 |
21 |
2,33 |
|
8 |
Portugal |
71 |
31 |
2,29 |
|
9 |
México |
63 |
28 |
2,25 |
|
10 |
Costa Rica |
38 |
17 |
2,24 |
Líder do ranking: Gana, com 2,58 cartões por partida. Não é a Argentina, nem a Itália, nem alguma seleção europeia experiente — é Gana, uma equipe cuja melhor campanha de todos os tempos terminou nas quartas de final e nunca foi além, mas que, mesmo assim, é a nação que mais recebeu cartões neste século em termos de média. Eles simplesmente concentram suas faltas em um punhado de partidas e depois voltam para casa. Ninguém espera ver Gana em primeiro lugar. E é justamente esse o ponto.
Agora procure a Argentina. Ela não está aqui. Líder na tabela bruta com 82 pontos, ela cai para aproximadamente o 14º lugar em termos de taxa, com 2,10 — bem fora deste top 10. Sua liderança, ao que parece, era uma ilusão de longevidade, não um registro de agressividade.
Observe também a companhia de Gana. A tabela por partida é dominada por nações africanas e de nível intermediário — Camarões, Paraguai, Equador, Austrália — ao lado da Holanda e de uma Itália congelada no tempo, que não se classifica desde 2014 e cujo índice é essencialmente um fóssil de uma era de arbitragem mais severa. São seleções que jogam com intensidade em menos partidas, ao contrário dos habituais pesos pesados que passam sem esforço por sete ou oito jogos. Há uma lógica nisso: uma equipe que chega como azarão, muitas vezes defendendo uma vantagem ou tentando recuperar um jogo que espera perder, comete mais faltas por noventa minutos do que um favorito que controla a posse de bola. As grandes nações distribuem suas faltas ao longo de campanhas prolongadas. Todas as outras concentram as suas em uma participação curta e frenética. “Maior número de faltas” e “jogo mais sujo” são duas questões diferentes, e têm duas respostas diferentes. A primeira premia as seleções que vencem; a segunda expõe as seleções que lutam com unhas e dentes.

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De onde vieram os cartões: torneio por torneio
Cada Copa do Mundo tem seu próprio clima. Algumas são tempestuosas, outras são estranhamente calmas.
| Ano | Cartão amarelo | 2º Amarelo | Cartão vermelho direto | SS | SI |
|---|---|---|---|---|---|
|
2002 |
261 |
6 |
11 |
306 |
4,78 |
|
2006 |
307 |
20 |
9 |
374 |
5,84 |
|
2010 |
244 |
8 |
9 |
287 |
4,48 |
|
2014 |
180 |
3 |
7 |
207 |
3,23 |
|
2018 |
221 |
2 |
2 |
231 |
3,61 |
|
2022 |
221 |
3 |
1 |
230 |
3,59 |
|
2026 |
266 |
2 |
13 |
309 |
2,97 |
A Coreia/Japão 2002 definiu o tom inicial, com a Turquia sendo a seleção que recebeu mais cartões (SS 25 em sete partidas) e a Nigéria a que teve o menor número de cartões, com um SS 2 quase imperceptível.
Em seguida veio 2006, o pico — e esse aumento não foi aleatório. Antes mesmo do pontapé inicial na Alemanha, a comissão de árbitros da FIFA determinou que os árbitros adotassem uma política de “tolerância zero” em relação a entradas imprudentes, puxões de camisa, perda de tempo e cotoveladas em disputas aéreas. Fundamentalmente, tratava-se de uma diretriz, não de uma mudança nas regras: as mesmas leis, aplicadas sem meias medidas. O resultado foi um SI de 5,84 e vinte cartões amarelos em um único torneio — dez vezes o número registrado em 2018 ou 2026. Portugal foi a seleção mais antidesportiva daquele verão, com SS 26, a pontuação mais alta de uma seleção em um torneio em todos os dados. A Arábia Saudita foi a mais tranquila, com 5.
A África do Sul 2010 pertenceu à Holanda (SS 24), e uma parcela notável disso ocorreu em uma única partida — a final, onde somente os holandeses receberam nove cartões amarelos. Mais sobre isso em breve.
Brasil 2014 foi, até recentemente, o torneio mais tranquilo de todos, com um SI de 3,23. Essa queda acompanhou o gradual abrandamento das regras após o fim da era da Tolerância Zero. Os anfitriões lideraram a tabela do próprio torneio com um SS de 14, o que é incomum — times da casa geralmente recebem o benefício da dúvida, não advertências extras. A Espanha foi a mais disciplinada, com um SS de 3.
A Rússia 2018 introduziu o VAR e, com ele, um novo padrão: um SI reduzido para 3,61, com a Croácia sendo a mais punida (SS 15) e a Arábia Saudita surpreendentemente disciplinada, com SS 1. O Catar 2022 praticamente igualou esse valor, com 3,59, sendo a Argentina a mais antidesportiva (SS 17, grande parte concentrada em uma noite notória) e a Inglaterra a mais disciplinada, com apenas um ponto. Observe a Arábia Saudita ao longo dos anos para ver uma reviravolta impressionante: SS 5 em 2006, caindo para 1 em 2018 e, em seguida, subindo para 14 em apenas três partidas em 2022.
E então 2026 — 48 seleções, 104 partidas e a Copa do Mundo mais tranquila do século em termos de índice: um SI de apenas 2,97, abaixo até mesmo de 2014. A duplicação do número de seleções não tornou o futebol mais violento por partida; ao contrário, diluiu a intensidade, inundando a programação com partidas de fase de grupos desequilibradas que puxam a média para baixo. A Argentina foi novamente a seleção que recebeu mais cartões (SS 15, um “imposto” de finalista), enquanto a Tchequia e a Tunísia empataram como as mais disciplinadas, com apenas um ponto. O único aspecto em que 2026 rompeu com a tranquilidade foram os cartões vermelhos diretos — treze deles, mais do que em qualquer outro torneio deste século. Guarde essa informação também.

Fonte: engadget.com
A Seleção Mais Violenta de Cada Torneio — Quando Se Considera o Número por Partida
Ao passar dos totais brutos para o número de cartões por partida, algo curioso acontece: a seleção mais antidesportiva de quase todas as Copas do Mundo deste século acaba sendo uma equipe que nunca passou da fase de grupos. Três partidas acirradas, uma volta precoce para casa e uma média por partida que nenhum gigante de longa trajetória consegue igualar.
| Torneio | Time mais antidesportivo (por partida) | SS | Partidas | SI |
|
2002 |
Eslovênia |
13 |
3 |
4,33 |
|
2006 |
Sérvia e Montenegro |
15 |
3 |
5,00 |
|
2010 |
Austrália |
13 |
3 |
4,33 |
|
2014 |
Uruguai |
11 |
4 |
2,75 |
|
2018 |
Panamá |
11 |
3 |
3,67 |
|
2022 |
Arábia Saudita |
14 |
3 |
4,67 |
|
2026 |
Catar |
10 |
3 |
3,33 |
O ponto alto de toda a competição foi a Sérvia e Montenegro em 2006: 15 pontos em três jogos, um SI de 5,00 — o maior valor por partida já registrado por qualquer líder de torneio. Eliminados na fase de grupos, eles ainda assim cometeram mais faltas do que todos os que permaneceram na competição. Portugal liderou a tabela bruta daquele verão com um SS de 26, mas, ao longo de sete partidas, isso equivale a apenas 3,71.
A Arábia Saudita de 2022 é a ilustração mais clara desse fenômeno e a mais irônica. A mesma seleção saudita mencionada acima como historicamente moderada recebeu 14 cartões em três partidas, totalizando um SI de 4,67 — de longe a taxa mais alta do torneio. A Argentina liderou a contagem bruta naquele ano com 17, mas disputou sete partidas para chegar a esse número; distribuído, isso dá apenas 2,43 por partida. A seleção que chegou mais longe parecia muito mais tranquila do que a que voltou para casa mais cedo.
2018 traz a história mais clássica de azarão. O Panamá, em sua única participação na Copa do Mundo, foi a seleção mais antidesportiva por partida, com 3,67 — enquanto a Croácia, que recebeu o maior número de cartões no total e chegou à final, ficou com um moderado 2,14 por partida. Chegar à final é exatamente o que dilui esse número. 2002 é um exemplo disso: a Eslovênia liderou com 4,33, apesar de ter sido eliminada na fase de grupos, enquanto a Turquia, líder no total bruto, disputou sete partidas até chegar ao terceiro lugar e terminou com 3,57.
2026 mantém o padrão intacto, mesmo em um ano tranquilo. O título de maior média por partida ficou com o Catar — eliminado após três jogos, uma das novatas no campo ampliado de 48 seleções —, com 3,33 por jogo, enquanto a Argentina, finalista, apresentou uma média moderada de 1,88. E observe o quanto esse valor líder está mais baixo: 3,33 não teria liderado nenhum torneio anterior a 2026, exceto o de 2014. A equipe mais combativa de 2026 teria ficado no meio da tabela na maioria dos outros anos.
O padrão, segundo a pesquisa da TipsGG, é consistente: campanhas longas diluem a média de uma seleção, pois mais partidas significam mais jogos com poucos cartões, o que puxa a média para baixo. Campanhas curtas e intensas fazem o contrário. Se você cometer muitas faltas e for eliminado logo no início, lidera esta tabela; se vencer até a final, sua média por partida será respeitável.
- Leia também: Os 10 melhores técnicos da Copa do Mundo da FIFA 2026 com as carreiras de jogador mais brilhantes
As partidas que definiram o histórico de uma seleção
Duas partidas se destacam acima de todas as outras e, juntas, explicam uma parte surpreendente da tabela histórica.
A primeira foi a vitória de Portugal por 1 a 0 sobre a Holanda nas oitavas de final de 2006 — a “Batalha de Nuremberg”. O árbitro Valentin Ivanov perdeu a paciência e depois ficou sem cartões: 16 amarelos e 4 vermelhos, 20 no total, ainda hoje a partida com mais cartões na história da Copa do Mundo, segundo registros oficiais da FIFA. Portugal ficou com a maior parte delas, o suficiente para levá-lo ao SS (Índice de Cartões) de 26, o maior do torneio. Esse valor continua sendo o recorde para uma única seleção em uma única Copa do Mundo.
O segundo recorde veio dezesseis anos depois: Argentina 2 x 2 Holanda nas quartas de final de 2022, a Batalha de Lusail. Dezoito cartões amarelos e um vermelho — o maior número de cartões amarelos já mostrados em uma partida da Copa do Mundo, novamente segundo os registros oficiais da FIFA, todos eles exibidos pelo árbitro Mateu Lahoz. A Argentina, sozinha, foi responsável por dez desses cartões, um recorde para uma única seleção, com o ponto culminante ocorrendo quando Leandro Paredes chutou uma bola para fora direto no banco da Holanda. Essa única partida é a principal razão pela qual a Argentina ocupa o topo do ranking bruto.
A Copa do Mundo de 2026, apesar de seus treze cartões vermelhos, não produziu nada que se comparasse a isso. Seus problemas disciplinares estavam mais dispersos — distribuídos por mais seleções e mais partidas, e não concentrados no pesadelo de um único árbitro. As duas grandes tempestades de cartões do século ainda marcam o início e o fim das eras: Nuremberg detém o recorde de total de cartões e cartões vermelhos nos anos turbulentos anteriores ao VAR; Lusail detém o recorde de cartões amarelos na era mais tranquila que se seguiu, com revisão por vídeo.
O efeito VAR — e a exceção da Argentina
O VAR chegou à Rússia 2018, e a ruptura estrutural é difícil de ignorar. Índice de Rigor médio pré-VAR (2002–2014): 4,59. Pós-VAR (2018–2026): 3,32 — uma queda de quase 28%. O número de segundos cartões amarelos despencou e permaneceu baixo: 6, 20, 8, 3, depois 2, 3, 2. Mas o número de cartões amarelos por partida quase não se alterou. A falta tática sobreviveu às câmeras; o colapso total, não.
Há, no entanto, uma exceção marcante à tendência de acalmia — os cartões vermelhos diretos. Eles despencaram após a introdução do VAR (11, 9, 9, 7, depois 2 e, em seguida, 1), apenas para voltar com força total em 2026: treze cartões vermelhos diretos, o maior número de qualquer torneio neste século. Parte disso se deve à aritmética — 104 partidas em vez de 64 —, mas não totalmente; mesmo por partida, os cartões vermelhos aumentaram. O culpado mais provável é o novo conjunto de diretrizes de 2026, incluindo expulsões obrigatórias por abandonar o campo em protesto e uma linha mais dura contra a contestação. A história de que “os cartões vermelhos estão praticamente extintos”, de 2018 a 2022, não resistiu ao formato ampliado.
O que é igualmente revelador é o impacto que o VAR teve sobre as equipes individualmente. Se compararmos a média de cartões por partida de cada grande seleção antes da chegada das câmeras (2002–2014) com a média depois (2018–2026), vemos que quase todas melhoraram:
- Portugal: 3,00 → 1,43. Mais da metade a menos — a reforma mais drástica entre todas as grandes seleções, e muito distante da equipe que deu ao mundo a “Batalha de Nuremberg”.
- Croácia: 2,89 → 1,50. Uma seleção que chegou à final de 2018 e, de alguma forma, se mostrou mais calma sob o novo escrutínio, e não mais nervosa.
- Holanda: 2,89 → 1,67. Queda acentuada, embora continue sendo a seleção mais propensa a receber cartões do grupo ao longo de todo o período.
- Brasil: 1,96 → 1,40. A reputação do “jogo bonito” finalmente se alinhando aos números.
O padrão é uniforme: mais escrutínio, menos cartões. E aí está a Argentina, seguindo na direção oposta. Seu índice subiu após a implantação do VAR, de 1,95 para 2,55, e depois se estabilizou em 2,26 ao longo de todo o período pós-VAR — a única grande seleção que piorou enquanto todas as outras ficaram mais limpas. Parte disso se deve a Lusail, parte à campanha de 2022 como um todo, e foi justamente a Argentina, entre todas as seleções, que finalmente registrou um segundo cartão amarelo em 2026 — a única grande potência que ainda se mantém na tendência, enquanto as demais se afastaram dela. (Uma pequena nota de rodapé que diz tudo: uma das advertências da Argentina em 2022 foi para um membro da comissão técnica, o que só foi possível graças à regra de 2019 que estendeu a aplicação de cartões aos dirigentes das equipes — algo bastante apropriado para a única seleção determinada a não amadurecer.)

Fonte: soccer24.co.zw
2026: o veredicto foi dado
Desta vez, o padrão já havia sido quebrado — e agora os números foram divulgados. Quarenta e oito seleções, 104 partidas e, exatamente como esperado, os maiores totais brutos do século: 266 cartões amarelos, bem mais do que em qualquer torneio anterior. A Argentina, como de costume, liderou mais uma vez a contagem bruta por seleção (SS 15), com a “taxa dos finalistas” aparecendo bem na hora certa.
A verdadeira questão sempre foi a taxa — e, nesse ponto, 2026 trouxe uma surpresa genuína. Após a implantação do VAR, o Índice de Rigor havia se mantido entre 3,59 e 3,61 por dois torneios consecutivos. Quase dobrar o número de seleções não fez com que ele subisse; pelo contrário, fez com que caísse para 2,97 — a Copa do Mundo mais tranquila do século e a primeira a ficar abaixo de três. Todo esse futebol a mais acabou sendo, em grande parte, futebol com poucos cartões: jogos de fase de grupos desequilibrados que aumentaram o número de cartões amarelos, mas reduziram a média.
Duas constatações se destacam. Primeiro, a reversão nos cartões vermelhos: após cair drasticamente para 2 e depois para 1, os cartões vermelhos diretos saltaram para 13, um recorde do século, provavelmente devido ao impacto das novas diretrizes de 2026 contra protestos e dissidências. Segundo, o título de maior média por partida foi, como sempre, para uma vítima da fase de grupos — o Catar, eliminado após três jogos, com 3,33 —, enquanto as seleções que chegaram mais longe pareceram mais comportadas. As duas perguntas em que todo este artigo se baseia ainda trazem duas respostas diferentes.
E a mudança estrutural finalmente ocorreu. As seleções que costumavam acumular suas faltas em três partidas e voltar para casa — Gana, Camarões e Paraguai, que dominam a tabela por partida — agora têm mais partidas para disputar, mais jogos com poucos cartões para diluir sua própria média. Isso fica evidente: Gana ainda lidera a tabela histórica por partida, mas agora com 2,58, abaixo dos 2,87 que registrava antes de 2026 (seis cartões em quatro partidas desta vez). A vantagem da longevidade que colocou a Argentina no topo é, finalmente, algo que as nações menores estão começando a compartilhar — e a diferença entre “as mais desleais por taxa” e “as que recebem mais cartões no total” está começando a diminuir.
Uma observação sobre o método — e suas limitações
O Índice de Rigor é deliberadamente simples: ele conta os cartões e divide pelo número de partidas. Essa simplicidade é o objetivo, mas não conta toda a história, e vale a pena ser franco sobre o que o número não captura. Ele trata um jogo da fase de grupos de 90 minutos e uma partida eliminatória de 120 minutos como iguais, quando a prorrogação oferece chances extras de receber cartões. Ele não leva em conta o árbitro, cujo critério pessoal pode, por si só, influenciar o número de cartões em uma partida (as três partidas apitadas por Mateu Lahoz em 2022 atingiram um IS de 9,00, segundo dados do TipsGG — bem acima da média de qualquer time). Também não leva em conta o adversário: os cartões costumam ser recíprocos, com a agressividade de um time provocando uma resposta semelhante. E os cartões são apenas um vestígio visível do jogo “sujo” — faltas que não resultam em cartão nunca entram no registro. Interprete o Índice pelo que ele é: uma medida consistente e comparável de quem os árbitros realmente punem, não um veredicto definitivo sobre quem comete mais faltas. Um modelo mais abrangente — minutos jogados, tendências dos árbitros, efeitos do adversário, contagem bruta de faltas — é o próximo passo natural, e é o que pretendemos desenvolver.