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Além dos cartões: quais seleções realmente jogam o futebol mais sujo na Copa do Mundo? Uma análise da TipsGG

22/06/2026, 05:48

A Argentina acumulou mais cartões nas Copas do Mundo do século XXI do que qualquer outra seleção — 67 pontos disciplinares em seis torneios. Mas há um porém. Por partida, ela nem sequer figura entre as oito primeiras. A seleção que, na verdade, joga de forma mais desleal, jogo a jogo, é uma que quase ninguém conseguiria adivinhar nem em cem tentativas, e que nunca passou das quartas de final.

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Essa diferença entre “mais cartões” e “jogo mais sujo” permeia tudo o que se segue. Analisamos todas as seis Copas do Mundo do século, da Coreia/Japão 2002 ao Catar 2022, e avaliamos cada seleção por meio de um único indicador — o Índice de Rigor da TipsGG — para descobrir contra quem os árbitros realmente recorrem ao cartão.

Uma breve explicação sobre como estamos fazendo a contagem

Nem todos os cartões têm o mesmo peso, por isso não os tratamos da mesma forma. Um cartão amarelo vale 1 ponto. Um segundo cartão amarelo — aquele que leva à expulsão do jogador — vale 2. Um cartão vermelho direto, o pior de todos, vale 3. Some os cartões de uma seleção e você obtém seu Resumo de Rigor, o SS. Esse é o total bruto.

O problema com os totais brutos é que eles favorecem a sobrevivência. Uma equipe que chega à final joga sete partidas; uma equipe eliminada na fase de grupos joga três e, naturalmente, recebe menos cartões simplesmente porque passa menos tempo em campo. Por isso, dividimos o SS de cada time pelo número de partidas disputadas para obter o Índice de Rigor — cartões por jogo. Esse é o número que importa e, como você verá, ele reorganiza toda a tabela. (Tudo isso é pesquisa da TipsGG, utilizando o mesmo método para todos os times e torneios.)




    Leia também: As fábricas por trás da Seleção. As academias brasileiras que formaram a seleção para a Copa do Mundo da FIFA 2026

Os rankings gerais — e por que eles induzem ao erro

Aqui está o ponto óbvio para começar: quem acumulou mais cartões ao longo de vinte anos.

Posição Time Amarela 2º Amarelo Vermelho direto Total de SS Partidas SI

1

Argentina

61

0

2

67

31

2,16

2

Portugal

49

3

3

64

26

2,46

2

Países Baixos

56

4

0

64

23

2,78

4

Brasil

52

1

2

60

34

1,76

5

França

49

0

3

58

32

1,81

6

Alemanha

51

3

0

57

34

1,68

7

México

51

1

1

56

23

2,43

8

Coreia do Sul

51

0

0

51

24

2,12

9

Croácia

37

3

2

49

23

2,13

10

Uruguai

38

1

2

46

22

2,09

A Argentina lidera com 67. Mas observe a coluna à direita: 31 partidas, mais do que qualquer outra nação da lista. O país lidera a contagem em grande parte porque sempre chega às fases decisivas dos torneios e, consequentemente, joga mais futebol. Quanto mais jogos você joga, mais cartões acumula — é quase assim de simples.

Depois, há algo realmente estranho sobre a Argentina. Sessenta e um cartões amarelos, dois cartões vermelhos diretos e, ao longo de seis torneios, nenhum jogador recebeu dois cartões amarelos na mesma partida e foi expulso. Zero cartões amarelos por reincidência. A maioria das seleções no topo da lista tem alguns; a Holanda tem quatro. A Argentina acumulou uma montanha de advertências sem que ninguém jamais tenha cruzado a linha específica que transforma dois cartões amarelos em uma expulsão antecipada. É um tipo estranhamente disciplinado de indisciplina — eles cometem faltas constantemente, mas raramente perdem o controle.

Os holandeses têm um temperamento oposto. Quatro cartões amarelos por reincidência são o maior número entre todas as seleções, marca registrada de jogadores que vão um passo além na disputa. Portugal tem o perfil mais agitado de todos: três cartões amarelos por reincidência e três cartões vermelhos diretos, sendo a única nação em risco real nas duas frentes.

E então, em quarto lugar na lista, o Brasil. O país sinônimo de “joga bonito”, com talento, samba e futebol como alegria — o quarto mais sujo do século em contagem bruta, com 60 pontos. Guarde essa informação, porque a tabela por partida está prestes a revelar algo interessante a respeito.

O verdadeiro ranking: cartões por partida

Esta é a tabela que a contagem bruta estava ocultando. Se tirarmos a vantagem da longevidade e dividirmos pelo número de jogos disputados, um grupo completamente diferente de seleções sobe ao topo.

Posição Time Resumo do rigor Partidas SI (cartões/partida)

1

Gana

43

15

2,87

2

Países Baixos

64

23

2,78

3

Austrália

44

17

2,59

4

Tunísia

31

12

2,58

5

Camarões

30

12

2,50

5

Paraguai

30

12

2,50

5

Senegal

30

12

2,50

8

Portugal

64

26

2,46

9

México

56

23

2,43

10

Suíça

46

19

2,42

Líder do ranking: Gana, com 2,87 cartões por partida. Não é a Argentina, nem a Itália, nem alguma seleção europeia experiente — é Gana, uma equipe que nunca chegou longe em uma Copa do Mundo e, ainda assim, é a nação com a maior média de cartões do século. Eles simplesmente acumulam suas faltas em algumas poucas partidas e depois voltam para casa. Ninguém espera ver Gana em primeiro lugar. E é justamente essa a questão.

Agora procure a Argentina. Ela não está aqui. Líder na tabela bruta com 67 pontos, ela cai para o nono lugar em termos de índice, com 2,16 — ficando totalmente fora do top 10. Sua liderança, ao que parece, era uma ilusão de longevidade, não um registro de agressividade.

Observe também a companhia de Gana. A tabela por partida é dominada por nações africanas e de nível médio — Tunísia, Camarões, Senegal, todas exatamente com 2,50 — ao lado da Holanda e da Austrália. São times que jogam com intensidade em menos partidas, ao contrário dos habituais pesos pesados que passam sem esforço por sete jogos. Há uma lógica nisso: uma equipe que chega como azarão, muitas vezes defendendo uma vantagem ou tentando recuperar um jogo que espera perder, comete mais faltas por noventa minutos do que um favorito que controla a posse de bola. As grandes nações distribuem suas faltas ao longo de campanhas prolongadas. Todas as outras concentram as suas em uma participação curta e frenética. “Maior número de cartões” e “jogo mais sujo” são duas questões diferentes, e têm duas respostas diferentes. A primeira premia as seleções que vencem; a segunda expõe as seleções que jogam com agressividade.

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De onde vieram os cartões: torneio por torneio

Cada Copa do Mundo tem seu próprio clima. Algumas são tempestuosas, outras são estranhamente calmas.

Ano Cartão amarelo 2º Amarelo Cartão vermelho direto SS SI

2002

261

6

11

306

4,78

2006

307

20

9

374

5,84

2010

244

8

9

287

4,48

2014

180

3

7

207

3,23

2018

220

2

2

230

3,59

2022

221

3

1

230

3,59

A Coreia/Japão 2002 definiu o tom inicial, com a Turquia sendo a seleção que recebeu mais cartões (22 cartões em sete partidas) e a Nigéria a que menos sofreu, com apenas 2 cartões.

Em seguida veio 2006, o pico — e esse aumento não foi aleatório. Antes mesmo do pontapé inicial na Alemanha, a comissão de árbitros da FIFA determinou que os árbitros adotassem uma política de “tolerância zero” contra entradas imprudentes, puxões de camisa, perda de tempo e cotoveladas em disputas aéreas. Fundamentalmente, tratava-se de uma diretriz, não de uma mudança nas regras: as mesmas leis, aplicadas sem meias medidas. O resultado foi um SI de 5,84 e vinte cartões amarelos em um único torneio — dez vezes o número (dois) registrado em 2018. Portugal foi a seleção mais antidesportiva daquele verão, com SS 24, a pontuação mais alta de uma seleção em um torneio em todo o conjunto de dados. A Arábia Saudita foi a mais tranquila, com 5.

A África do Sul 2010 pertenceu à Holanda (SS 24), e uma parcela notável disso ocorreu em uma única partida — a final, onde somente os holandeses receberam nove cartões amarelos. Mais sobre isso em breve.

Brasil 2014 foi o torneio mais tranquilo de todos, com um SI de 3,23 e uma queda de 45% em relação ao pico de 2006. Essa queda não foi um acidente de temperamento; ela acompanhou o gradual abrandamento das regras após o fim dos anos da “Tolerância Zero”. Os anfitriões lideraram a tabela do próprio torneio com SS 14, o que é incomum — as seleções da casa geralmente recebem o benefício da dúvida, não advertências extras. A Espanha foi a mais disciplinada, com SS 3.

A Rússia 2018 introduziu o VAR e, com ele, um novo padrão: um SI já reduzido para 3,59, com a Croácia sendo a seleção que recebeu mais cartões (SS 15) e a Arábia Saudita surpreendentemente disciplinada com SS 1. O Catar 2022 igualou exatamente esse 3,59 — SS idêntico de 230 —, com a Argentina sendo a mais desleal (SS 17, grande parte concentrada em uma noite notória) e a Inglaterra a mais disciplinada, com apenas um ponto. Observe a Arábia Saudita ao longo dos anos para ver a reviravolta: SS 5 em 2006, caindo para 1 em 2018 e, em seguida, subindo para 14 em apenas três partidas em 2022.

VAR in football

Fonte: engadget.com

A equipe mais antidesportiva de cada torneio — quando se conta por partida

Ao passar dos totais brutos para os cartões por partida, algo curioso acontece: a seleção mais antidesportiva de quase todas as Copas do Mundo deste século acaba sendo uma equipe que nunca passou da fase de grupos. Três partidas acirradas, uma volta antecipada para casa e uma média por partida que nenhum gigante de longa trajetória consegue igualar.

Torneio Time mais desleal (por partida) SS Partidas SI

2002

Eslovênia

13

3

4,33

2006

Sérvia e Montenegro

15

3

5,00

2010

Austrália

13

3

4,33

2014

Uruguai

11

4

2,75

2018

Panamá

11

3

3,67

2022

Arábia Saudita

14

3

4,67

A Arábia Saudita em 2022 é o exemplo mais claro desse truque, e também o mais irônico. A mesma seleção saudita, mencionada acima como historicamente moderada, recebeu 14 cartões em três partidas, totalizando um SI de 4,67 — de longe, a média mais alta do torneio. A Argentina liderou o ranking geral naquele ano com 17 cartões, mas disputou sete partidas para chegar a esse número; se dividirmos por sete, dá apenas 2,43 por partida. A seleção que chegou mais longe parecia muito mais tranquila do que a que voltou para casa mais cedo.

O ponto alto de todo o exercício é a Sérvia e Montenegro em 2006: 15 pontos em três partidas, um SI de 5,00 — o maior valor por partida já registrado por qualquer líder de torneio. Eliminada na fase de grupos, ainda assim cometeu mais faltas do que todos os que permaneceram na competição. Portugal liderou a tabela bruta daquele verão com um SS de 24, mas, ao longo de sete partidas, isso equivale a apenas 3,43.

2018 traz a história mais clássica de azarão. O Panamá, em sua única participação na Copa do Mundo, foi a seleção mais antijogadora por partida, com 3,67 — enquanto a Croácia, que recebeu o maior número de cartões no total e chegou à final, ficou com uma média moderada de 2,14 por partida. Chegar à final é exatamente o que dilui esse número. O ano de 2002 segue a mesma lógica: a Eslovênia liderou com 4,33, apesar de ter sido eliminada na fase de grupos, enquanto a Turquia, líder no total bruto, disputou sete partidas até chegar ao terceiro lugar e terminou com 3,14, nem mesmo entre as cinco primeiras em termos de média.

A exceção que confirma a regra é 2014, o torneio mais tranquilo nos dados — mesmo o líder por partida, o Uruguai, registrou apenas 2,75, um número que não teria entrado entre os cinco primeiros na maioria dos outros anos.

O padrão, segundo a pesquisa da TipsGG, é consistente: campanhas longas diluem a média de uma seleção, pois mais jogos significam mais partidas com poucos cartões, o que puxa a média para baixo. Campanhas curtas e intensas fazem o contrário. Se você cometer muitas faltas e for eliminado logo no início, fica no topo dessa tabela; se vencer até a final, sua média por jogo fica respeitável.




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As partidas que definiram o histórico de uma seleção

Dois jogos se destacam acima de todos os outros e, juntos, explicam uma parcela surpreendente da tabela histórica.

A primeira é a vitória de Portugal por 1 a 0 sobre a Holanda nas oitavas de final de 2006 — a Batalha de Nuremberg. O árbitro Valentin Ivanov perdeu a paciência e depois ficou sem cartões: 16 amarelos e 4 vermelhos, 20 no total, ainda hoje a partida com mais cartões na história da Copa do Mundo, segundo registros oficiais da FIFA. Portugal ficou com a maior parte delas, o suficiente para levá-lo ao SS (índice de cartões) de 24, o maior do torneio. Esse valor continua sendo o recorde para uma única seleção em uma única Copa do Mundo.

O segundo lugar veio dezesseis anos depois: Argentina 2 x 2 Holanda nas quartas de final de 2022, a Batalha de Lusail. Dezoito cartões amarelos e um vermelho — o maior número de cartões amarelos já mostrados em uma partida da Copa do Mundo, novamente segundo os registros oficiais da FIFA, todos eles exibidos pelo árbitro Mateu Lahoz (segundo dados do TipsGG, suas três partidas em 2022 geraram um SI de 9,00). A Argentina, sozinha, foi responsável por dez dessas advertências, um recorde para uma única seleção, com o ponto culminante ocorrendo quando Leandro Paredes chutou uma bola para fora direto no banco da Holanda. Essa única partida é a principal razão pela qual a Argentina ocupa o topo do ranking bruto.

Juntas, as duas partidas marcam o fim de uma era e o início de outra. Nuremberg detém o recorde de total de cartões e cartões vermelhos nos anos turbulentos anteriores ao VAR; Lusail detém o recorde de cartões amarelos na era mais tranquila que se seguiu, com a análise por vídeo.

O efeito do VAR — e a exceção da Argentina

O VAR chegou à Rússia 2018, e a mudança estrutural é difícil de ignorar. Índice de Rigidez médio pré-VAR: 4,58. Pós-VAR: 3,59 — uma queda de 21,6%. As penalidades mais graves caíram vertiginosamente: os cartões vermelhos diretos passaram de 11, 9, 9, 7, depois 2 e, por fim, 1; os segundos cartões amarelos foram 6, 20, 8, 3, 2, 3. Mas o número de cartões amarelos praticamente não mudou — 220 em 2018, 221 em 2022. As faltas táticas sobreviveram às câmeras. O colapso total, não.

O que é mais recente é o que o VAR fez com as equipes individualmente. Se compararmos a média de cartões por partida de cada grande time antes da chegada das câmeras (2002–2014) com a de depois (2018–2022), vemos que quase todos se comportaram melhor:

  • Portugal: 3,00 → 1,44. Mais da metade a menos — a reforma mais drástica entre todas as potências, e muito distante da seleção que presenteou o mundo com a “Batalha de Nuremberg”.
  • Croácia: 2,89 → 1,64. Uma seleção que chegou à final de 2018 e, de alguma forma, se mostrou mais calma sob o novo escrutínio, e não mais nervosa.
  • Holanda: 2,89 → 2,40. Também apresentou queda, embora continue sendo a seleção mais propensa a receber cartões do grupo, mesmo após a redução.
  • Brasil: 1,96 → 1,30. A menor taxa pós-VAR aqui — a reputação do “jogo bonito” finalmente se alinhando aos números.

O padrão é uniforme: mais escrutínio, menos cartões. E aí está a Argentina, seguindo na direção oposta. Seu índice subiu após a implantação do VAR, de 1,95 para 2,55 — a única grande seleção que piorou enquanto todas as outras ficaram mais limpas. Parte disso se deve a Lusail, parte à campanha de 2022 como um todo, mas a direção é inconfundível. Enquanto o resto da elite se comportou melhor, a Argentina se teimou. (Uma pequena nota de rodapé que diz tudo: um dos cartões da Argentina em 2022 foi para um membro da comissão técnica, o que só foi possível graças à regra de 2019 que estendeu a aplicação de cartões aos dirigentes das equipes — algo bastante apropriado para a única seleção determinada a não amadurecer.)

Portugal vs Netherlands 2006

Fonte: soccer24.co.zw

2026: O teste já está em andamento

Desta vez, o padrão já foi quebrado. Quarenta e oito seleções, 104 partidas e uma fase de grupos ainda em andamento enquanto você lê isto. Todo esse futebol a mais praticamente garante mais cartões do que em qualquer torneio anterior, além de um conjunto de números mais extenso e expressivo quando o troféu for erguido.

A verdadeira questão é a frequência. Após a introdução do VAR, o Índice de Rigor manteve-se exatamente em 3,59 por dois torneios consecutivos. Será que ele sobreviverá à quase duplicação do número de equipes? Um novo conjunto de diretrizes para 2026 pode influenciá-lo para um lado ou para outro — cartões vermelhos obrigatórios por sair de campo em protesto, a regra de que apenas o capitão pode contestar, contagens regressivas visíveis contra a perda de tempo e o VAR agora com poder para anular um segundo cartão amarelo claramente errado. Os primeiros jogos da fase de grupos começarão a dar indícios da resposta; as eliminatórias vão definir o resultado.

E observe a mudança estrutural. As seleções que costumavam concentrar suas faltas em três jogos e voltar para casa — as Ganas, Tunísias e Camarões que lideram a tabela por partida — agora têm mais jogos para disputar. Mais partidas significam totais brutos maiores, o que significa que a diferença entre “mais sujo por taxa” e “mais cartões no total” pode finalmente começar a diminuir. A vantagem da longevidade que colocou a Argentina no topo pode, finalmente, ser algo que outras nações passem a compartilhar.

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