Da glória na Copa do Mundo ao escrutínio na Premier League
O sistema de som do Aston Villa ainda apresenta Emiliano Martinez como o número um do mundo, um eco do seu triunfo na Copa do Mundo de 2022 e dos dois troféus Yashin consecutivos. No entanto, a narrativa em torno do jogador da seleção argentina mudou. Outrora intocável, Martínez agora se encontra em uma encruzilhada na carreira, com sua forma sob o microscópio em uma temporada em que o Aston Villa ousa sonhar com uma disputa pelo título.
O Villa está em terceiro lugar na Prem League, sua melhor posição em anos, e continua vivo na Liga Europa. Mas as atuações recentes de Martinez levantaram dúvidas. Sua 200ª partida na Premier League pelo clube, na vitória por 2 a 0 sobre o Newcastle, foi um marco, não uma declaração. Com 59 jogos sem sofrer gols, o jogador de 33 anos tem sido a pedra angular do ressurgimento do Villa desde sua chegada por 17 milhões de libras em 2020. Nesta temporada, porém, as rachaduras são mais difíceis de ignorar.
A saga do Manchester United e suas consequências
A janela de transferências do verão trouxe um drama. Martinez parecia estar se despedindo após o último jogo do Villa em casa na última temporada, uma vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham. O clube, de olho em Mark Flekken, do Brentford, como um possível substituto, estava aberto à sua saída. Então veio a reviravolta: o Manchester United, sob o comando do então técnico Ruben Amorim, o procurou, mas acabou optando por Senne Lammens, uma alternativa mais jovem e mais barata do Royal Antwerp.
Os dados do United sugeriam que Lammens tinha potencial de longo prazo, mesmo que ainda não fosse igual a Martinez. O foco da equipe passou a ser os reforços ofensivos Matheus Cunha, Benjamin Sesko e Bryan Mbuemo, deixando Martinez sem espaço. Quando a janela se fechou, ele ficou de fora da derrota do Villa por 3 a 0 para o Crystal Palace, com Unai Emery apontando o nome do goleiro substituto Marco Bizot quando perguntado sobre a ausência de Martinez.
Seu retorno no empate em 0 a 0 com o Everton, em setembro, foi recebido com elogios efusivos de Emery: “o melhor goleiro do mundo”, como o espanhol o chamou, elogiando seu comprometimento “maciço”. Mas a consistência tem sido difícil desde então.
Os números contam uma história contraditória
As estatísticas de Martinez nesta temporada são um paradoxo. Ele defendeu 76,1% dos chutes que recebeu, a maior taxa da liga, e está em quinto lugar na métrica de “gols evitados” da Opta, com 17. Suas 55 defesas o colocam em 12º lugar entre os goleiros da Premier League, enquanto sua expectativa de gols sofridos é de 20,85. O Villa sofreu 25 gols nesta temporada, mas oito deles foram marcados por Bizot, o que ameniza o golpe.
O problema? Os erros. Três erros que levaram diretamente a gols, o maior número da liga, ofuscaram seus pontos fortes. O mais flagrante ocorreu em Anfield, em novembro, quando um presente para Mohamed Salah colocou o Liverpool no caminho para a vitória por 2 a 0. Depois, na goleada de 4 a 1 sofrida pelo Arsenal em dezembro, Martinez perdeu um escanteio sob pressão de Gabriel, permitindo que o zagueiro marcasse o gol. Os protestos de Villa de que o gol deveria ter sido anulado por uma cotovelada alta não foram ouvidos.
A derrota por 2 a 0 para o Everton no último domingo acrescentou outra mancha. Um fraco desvio do chute de Dwight McNeillevou ao gol da vitória de Thierno Barry. Martinez ficou de fora da vitória no meio da semana na Liga Europa contra o Fenerbahçe com uma lesão na panturrilha, e Bizot manteve sua quinta partida sem sofrer gols em 11 jogos nesta temporada. O holandês, de 34 anos e contratado do Brest no verão, não é uma solução a longo prazo, mas sua forma complicou o status de Martinez.
Uma posição solitária, um futuro nebuloso
Paul Robinson, ex-goleiro da Inglaterra, simpatiza com a situação de Martinez. “Você é o primeiro a saber que não está jogando bem”, disse ele. “É uma posição de confiança. Você tem que projetar calma, mesmo quando está uma bagunça por dentro. Às vezes a bola parece uma bola de praia. Às vezes, é do tamanho de uma bola de golfe.”
“Acho que isso já está acontecendo há algum tempo. As especulações nunca desapareceram. Eles não estavam em uma boa situação, mas a atração do Manchester United por ele naquela época parecia que ia acontecer. Parece que nesta temporada o foco foi ligeiramente desviado para longe do Aston Villa. Não tenho certeza de que ele esteja tão estável quanto antes. Pode ter havido uma pequena queda”
A avaliação de Robinson é direta: “Ele é um goleiro de alta qualidade. Eu o classificaria como um dos melhores do mundo? Não tenho certeza se o colocaria nessa categoria.”
Martinez continua sendo a primeira opção de Emery por enquanto. Mas com as ligações com a Inter de Milão e seu contrato que vai até 2029, o Villa enfrenta um dilema. Eles mantêm seu goleiro vencedor da Copa do Mundo ou exploram alternativas? O verão pode trazer clareza ou transtornos.
Uma coisa é certa: o homem apresentado como o melhor do mundo não se sente mais intocável.
Leia também: Quem pode se juntar ao Aston Villa nas oitavas de final da Liga Europa?